Sintonia, s.f., são dois olhares que cruzam seis pistas na hora do rush
> para juntar uma mesma flor no meio do asfalto que mais ninguém viu.
Não
> tem preço, não se reproduz em cativeiro, não prospera em ambiente
> controlado: ou há, ou não há. No primeiro caso, nos dá a confortante
> impressão de que não estamos sozinhos.
> Certeza, s.f., é uma grande enguia cega e fugidia que vive em um rio
raso
> de pedras afiadas e que devora as mãos dos muito confiantes que
tentam em
> vão apoderar-se dela.
> Espera, s.f., é uma prisão dentro de um relógio onde bate sempre a
mesma
> hora e não há palavras ou olhares cruzados.
> Desamparo, s.m., é um mirante sem proteção acima de um precipício
onde
> venta e faz muito frio. Há quem resista, mantenha-se de pé e, depois
de
> bastante tempo, crie asas e saia voando. Há quem sente, chore e peça
ajuda
> (alguns desses são resgatados, outros ficam lá para o resto da vida).
Há
> quem desista e pule.
> Silêncio, s. m., é quando a voz de dentro é tão alta que cala a voz
do
> mundo e faz um ninho líquido onde podemos descansar até de nós
mesmos.
> Intimidade, s. f., é um par de pantufas fofinhas, já bem gastas e
> aconchegantes, que usamos em casa e emprestamos só para quem amamos
muito.
> Distância, s. f., é a medida do espaço que se impõe entre pessoas e
que é
> tão mais difícil de transpor quanto menos ela esteja no mapa e mais
ela
> esteja na alma.
> Resignação, s. f., é a desistência que em vez de abandonar o barco,
se
> deixa levar pela correnteza.
> Alegria, s.f., é uma festa que se instala no corpo e nos enche de
> champanhe.
> Ansiedade, s. f., tipo de papel especial para embrulhar estômago que
> geralmente faz com que se enfie os pés pelas mãos.
> Solidariedade, s.f., é um paraquedas sempre de dois lugares,
inclusive - e
> principalmente - quando não abre.
> Desconsideração, s.f., é uma mulher vaidosa que passeia por horas a
fio se
> olhando em um imenso espelho que é você quem carrega.
> Angústia, s. f., é uma esperança que nos acena da porta, mas que a
gente
> nunca sabe se está entrando, ou se está saindo.
> Desejo, s.m., é uma fome deliciosamente itinerante que impregna a um
só
> tempo todos os sentidos e que podemos saciar cada dia de uma nova
maneira
> e, por isso, esperar que ela siga sempre inesgotável.
> Cansaço, s.m., é um casaco grosso que vai ganhando peso cada vez mais
> rápido com o passar dos anos e que fica cada vez mais difícil de
tirar
> quando dormimos.
> Ingenuidade, s.f., é uma menina que nasceu com um colar de pérolas
> rebentado no pescoço e que brinca de olhos fechados num imenso jardim
de
> tragédias enquanto vai perdendo, sem notar, uma a uma todas as suas
> crenças.
> Bestolho, s. m., é alguém que a gente ama absurdamente muito, que nos
faz
> rir e chorar de feliz e que, na falta - e na desnecessidade - de
palavras
> para explicar sempre e cada vez o quanto a gente gosta que ele faça
parte
> da nossa vida, a gente insulta de bestolho.
> Tristeza, s. f., é um lago de águas paradas e frias, habitado por
peixes
> cegos que um dia foram sonhos, onde é sempre noite e onde, às vezes,
vemos
> a nossa face refletida mais claramente do que em qualquer outro
lugar.
> Paixão, s.f., é o quarto estado da matéria, onde a desorganização das
> moléculas chega ao auge, o calor tende a passar de um corpo a outro e
> vice-versa, a entropia tende a aumentar cada vez mais em recinto
fechado e
> a temperatura tende ao infinito absoluto.
> Dúvida, s. f., é uma moratória temporal na qual você está tentando
arrumar
> argumentos suficientemente fortes (para você mesmo e para os outros)
para
> fazer, ou deixar de fazer, aquilo que você sempre teve certeza de que
> queria.
> Saudade, s. f., é uma fruta agridoce que nasce na alma de quem se
permitiu
> viver e amar. Pode trazer em si o gosto mais amargo do mundo, que é o
do
> que já fomos e não podemos mais voltar a ser. Excepcionalmente a
> encontramos ainda flor (das mais lindas que existem): é quando ela
ainda
> está tingida de expectativas e é saudade do que está por vir.
> Felicidade, s. f., é a exata medida e dura o exato tempo do sincero
> contentamento em, naquele instante, sermos quem somos, estarmos onde
> estamos e fazermos o que fazemos, comprometida de forma inversamente
> proporcional pelo desconforto que isso nos causa perante os outros.
> Amor, s. m., é um código secreto e perfeito decifrável mediante duas
> chaves - que podem nunca se encontrar, que podem estar perto e nunca
serem
> usadas, que podem não serem usadas porque quem a possui não aprendeu
como.
> Mas quando elas se encontram, e o código é decifrado, somos levados
> eternamente enquanto dura à paz de termos e nos fazermos casa um no
outro.